Qualquer cura tem como ponto de partida seu diagnóstico. A sociedade de massa não se constituiu sem uma base ou histórico. Conforme GYATSO (2011): “Nos primórdios, o ser humano vivia em comunidade e tudo que ele tinha, compartilhava. (...) Com o decorrer dos séculos, aumento da população, das possibilidades da vida, as pessoas foram ficando mais sofisticadas e se dividiram em classes. Esqueceu-se de que existe apenas um grande grupo, o de humanos.”
Segundo GASSET, (1926), ”(...) não há protagonistas, só há coro” na formação da sociedade contemporânea. As comunidades foram trocadas pelas aglomerações na escalada por melhores condições sociais e mais fácil acesso aos tão idolatrados bens materiais.
Mas onde se germinou essa idolatria? Após a Segunda Guerra Mundial, conforme divulgado em vídeo pela guru ambiental Annie Leonard, o analista de varejo Victor Lebow sugeriu que se instituísse o consumo como meio de vida, não só para o aquecimento econômico mas como um novo ideal social, como cita: “(...) que busquemos nossa satisfação espiritual, a satisfação de nosso ego, em consumo.” (THE STORY OF STUFF, 2007)
Para padronizar esse conceito fez-se uso da comunicação de massa, mais especificamente da televisão por atingir diversas classes econômicas. O intuito é moldar o ser humano às condições favoráveis para que essa sociedade continue existindo. As vontades instintivas dão lugar aos desejos pré-determinados. Somos programados para atender a demanda, como na música: “Pense, fale, compre, beba, leia, vote, não se esqueça, use, seja, ouça, diga, tenha, more, gaste e viva.” (PITTY, 2003)
Trocamos cultura por entretenimento que é definido como cultura de massa e nada mais é que “(...) um produto definido, padronizado, pronto para consumo.” (MORIN apud SANTANA, 2010). Não há interação racional na programação televisiva e em muito do que se vê circular pela Internet também. De acordo com Betto (2002), no Brasil, crianças e jovens passam quatro horas em sala de aula absorvendo cultura e conhecimento de forma mecânica, antiquada e superficial. Tais ensinamentos são brevemente desprezados e subestimados após as mesmas crianças e jovens passarem a mesma quantidade de horas já citadas em frente à TV, hipnotizadas, sendo bombardeadas por publicidades que traçam “(...) seu estereótipo de beleza, de educação, de cultura, de justiça etc.” (MENEZES – 2008)
Mas em meio à lama vejo a lótus! Cada vez mais o jovem se engaja em projetos sustentáveis. Várias passeatas e mobilizações virtuais expõem seus descontentamentos com as mídias corporativistas. Das ruínas econômicas das grandes potências brota a valorização dos conflitos existenciais humanos na busca de um lugar, de fato, no mundo.
Aos 15 anos fui apresentada a filosofia acadêmica através de um curta-metragem, passado aos alunos pelo professor, intitulado Ilha das Flores (FURTADO, 1989). O Impacto cognitivo foi tão profundo que, até hoje, soa em mim um ‘alarme interno’ ao descartar qualquer alimento no lixo. Acho essencial esse choque de realidade para formar cidadãos críticos e, principalmente, autocríticos, que preconizem o ‘Ser’ sobre o ‘Ter’.
Não dá mais para esperar que nossos jovens tomem coragem para engolir a pílula vermelha da verdade. (THE MATRIX, 1999) Cabe a nós, educadores, injetar doses diárias e ininterruptas, desde a infância, do soro que transforme nossa sociedade e a defenda dela mesma. É preciso contradizer o poeta Cazuza e mostrar para essa nova geração que ninguém precisa de uma ideologia para viver.
Referências Bibliográficas:
Escritas:
BETTO, Frei. Educar pra quê? Disponível no site: http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=4523 Consultado em 11/08/2011.
GASSET, José Ortega y. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES. Disponível em: http://campus15.unimesvirtual.com.br/eduead/mod/resource/view.php?inpopup=true&id=50697 Consultado em 26/09/2011.
GYATSO, Tenzin – Décimo Quarto dalai-lama. Entrevista para Revista AT Ano7 Ed.356 – Semeador do Amor. Santos: A Tribuna, 2011.
MENEZES, Nilton Gonçalves. Meios de comunicação social, ideologia e regressão do pensamento. Disponível no site: http://www.paralerepensar.com.br/niltonmenezes_meiosdecomunicacaosocial.htm Consultado em 26/09/2011.
MORIN, Edgar. In: SANTANA, Ana Lúcia. Cultura de Massa. Disponível em: http://www.infoescola.com/sociedade/cultura-de-massa/ Consultado em 26/09/2011.
Audiovisuais:
CAZUZA – NETO, Agenor de Miranda Araújo. Ideologia. Disponível no Álbum: Ideologia. Gravadora Poly Gram, 1988
FURTADO, Jorge. Ilha das Flores. Porto Alegre: Casa de Cinema, 1989.
LEONARD, Annie. The Story of Stuff (A História das Coisas). Disponível no site: www.storyofstuff.com Consultado em 26/09/2011.
PITTY – LEONE, Priscila Novaes. Admirável Chip Novo. Disponível no Álbum: Admirável Chip Novo. Gravadora Deck Disc, 2003
WACHOWSKI, Irmãos. The Matrix (Matrix). EUA: Warner Bros. Pictures, 1999.
