quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Decifra-me


Não gosto de ganhar flores.
Bombons, roupas caras e sapatos de grife não me dizem muito como presentes.
Prefiro as juras de amor ao pé do ouvido aos poemas de papelaria.
Troco mil serenatas por canções sussurradas ao amanhecer. Canções de nós dois, que ninguém mais conhece, que o rádio não toca...
O mais caro diamante não paga um beijo bem dado ou um olhar malicioso diante de uma lingerie nova.
Admito que gosto de torpedos no meio da tarde com siglas desconexas que só eu posso entender e que vibro nos sites de relacionamentos quando vejo meu nome descrito em lembranças simples de momentos que marcaram.
Nunca entendi porque um homem tem que levar a mulher pra jantar e depois pro motel. Isso me remete a “congestão”! Nada melhor do que saciar a fome de prazer primeiro e assim adquirir a cumplicidade necessária para degustar uma refeição a dois como deve ser. Porque queridas, escutem a titia: se não rolar na cama, na mesa é que não vai ter jeito!
Não curto romance com frescuras, com horas e datas, com cobranças e negociações. Casais clichês me inspiram desconfiança. Há que se ser muito humilde para assumir que numa relação impecável o sentimento que reina é o tédio.
Sou adepta do conforto e dele não abro mão. Por isso, qualquer scarpin que me esfole o calcanhar permanecerá no armário não importando o quanto tenha custado e nem mesmo a data em que me foi presenteado. Quero estar de havaianas quando você chegar, pra poder correr mais rápido para o seu abraço!
Eu não gravo a data do primeiro encontro, do pedido de namoro, do primeiro beijo. Mas vejo o por do sol, ouço a música que tocava e sei se era verão, por que tinha mosquitos e o cheiro de citronela ronda minha memória olfativa, ou inverno porque o gosto de vinho tinto toma conta dos meus lábios quando lembro.
Falo poucos eu te amo. Lembro de ter dito alguns ao encontrar a louça lavada ou a roupa estendida após um dia difícil de trabalho. Esqueci de vários, mas sei que eu disse, presos entre soluços de prazer ou de decepção.
Gosto de ganhar coisas úteis. Sim! Coisas pra casa, pras crianças, pra usar enfim! Bichinhos de pelúcia são lindos, nas prateleiras das lojas! Prefiro algo que tire ácaros, como um aspirador de pó, do que algo que os acumule. O que neste momento você chama de falta de romantismo, eu chamo de praticidade.
Mas também gosto de ser levada, conduzida. De ser surpreendida e me sentir segura com isso. Até os mais bravos comandantes precisam de um porto seguro para atracar.
Nenhuma mulher é uma equação com resultado exato. Talvez a fórmula flores e jóias, jantar e poemas possa funcionar para a grande maioria. Talvez minha feminilidade tenha se perdido no topo de uma das inúmeras árvores que escalei na minha infância. Talvez tantas paixões vividas me fizeram crer que o amor é uma construção diária feita de atitudes. No fundo eu gosto de ser assim, uma Esfinge ao contrário: decifra-me e meu apetite para te devorar se renova!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Esse tal de Mandela



No próximo dia 20 se comemora mais um Dia da Consciência Negra. Por conta disso, ontem me vi as voltas com uma pesquisa sobre o tema onde eu tinha que recortar figuras para a Gi levar para a escola a fim de montar um cartaz.
A pesquisa consistia em achar figuras de celebridades afro descendentes, comidas típicas e moda influenciada pela cultura negra.
De primeira já me vi embaraçada com a relutância da guriazinha em recortar a foto do Neymar, seguindo-se o diálogo:
 - Mãe, ele não é negro. Olha o cabelinho dele, que lisinho!
- Gi, ele é mais claro mas é filho de negros. É afro descendente sim, pode cortar!
- Mãe, é o Neymar! Não é o Pelé, mãe!
-Tá, deixa ele aí, vamos procurar outro!
E entre os ‘folheios’ da revista ela se deparou com uma foto de Michael Jackson e, sem titubear, cortou-a.
- Esse sim, ta bem branquinho aqui, mas eu sei que é negro!
Cabia alguma explicação? Melhor ficar quieta né!?
Para apressar o trabalho, pedi que ela pesquisasse na internet quais eram as comidas típicas enquanto eu e a Manu continuávamos procurando os famosos nas revistas. Enquanto ela estava no computador, achei uma foto de Nelson Mandela e a recortei.
Em outro momento interessante, Manu achou uma foto do rapper Emicida e, após recortar, mostrou para irmã dizendo: “É famoso sim. O NXZero até o deixou ele cantar junto com eles. É aquele que canta fazendo poesia, sabe?”
A Gi continuava gritando, lá do quarto, as comidas que descobriu em um site: “milho, farinha, feijão...”
Trocamos então de posto e passei ao computador para editar as figuras de vestuário que ela tinha achado e imprimi-las.
Qual não foi minha surpresa quando, ao olhar as fotos que tínhamos selecionado, ela exclama:
-Ah, esse tal de MADÉLA que escreveu sobre as comidas no site que eu tava pesquisando!
Sacam aquele Meme furioso que circula pela net? Pois era eu! Se eu tivesse um espelho por perto tenho certeza que veria refletido uma mistura de Fidel Castro com Minha mãe!
A narrativa durou uma meia hora e foi recheada de frases do tipo: “Se não fosse esse tal de Mandela você nem estaria fazendo esse trabalho sobre consciência negra!” e “Você sabe quem é Michael Jackson e desconhece Mandela, que tipo de educação você recebe kct!?”, entre outras! Depois de respirar, tirar a mão da cintura, parar de mexer o pescoço feito Fat Family e cantar pra subir o encosto de 'Mana do Bronxs', lembrei q minhas filhas ainda estão no terceiro ano e a matéria de história no currículo é bem pró forma. Mas pelos olhinhos atentos e consternados, acho que o sermão valeu como aula! Vi que elas tinham conseguido viajar pela África que retratei e que, puderam perceber que muito contra o qual o 'tal' do Mandela lutou ainda persiste e bem mais perto de nós.
No fim elas conseguiram entender que mais importante que Consciência Negra é a Consciência Humana. É saber que dentre artistas, jogadores de futebol e cantores estava a figura de Nelson Mandela. Porque celebridade é todo aquele que se destaca por fazer a diferença na vida de alguém. Seja emocionando, seja divertindo ou seja estimulando um sonho! Nelson Mandela foi o maior estimulador de sonhor de um povo: o sonho da igualdade e da liberdade!