O primeiro fato que se destacou, a meu ver, no filme, foi seu título: “Entre os Muros da Escola” (CANTET, 2007). Tal frase soou-me como a transformação da instituição de ensino, construída dentro de uma comunidade para atender aos componentes dela, em uma realidade paralela a realidade social deste grupo de pessoas.
É fato que se procura manter, delimitado pelos muros escolares, um estado de perfeição inabalável perante os problemas sociais externos. Não o é! Como parte de uma comunidade a escola deve conscientizar-se de que os alunos trazem para dentro da instituição seus problemas e esperam muito mais que professores perfeitos com saberes mecanicamente transmitidos. Buscam conhecimento que caiba na prática da resolução de seus conflitos.
“A principal função do professor é formar cidadãos capazes de contribuir para a harmonia social.” (DURKHEIM apud FERRARI, 2008) Isso não será possível enquanto a escola continuar assumindo um status de ‘universo paralelo’, inatingível pelos conflitos provenientes da galopante desigualdade social.
É importante se destacar do filme a postura do professor François e sua flexibilidade quanto ao planejamento pedagógico ao avaliar a atividade do aluno Soleymane mediante as possibilidades que ele dispunha de fazê-la. François levou em consideração o histórico social e familiar do aluno para mudar sua técnica de ensino. Dessa forma obteve do jovem, que tinha pouca intimidade com aquela língua por ainda não se sentir integrado à cultura daquele país que ora o abrigava, a mesma resposta através das imagens capturadas pelo aluno em sua câmera fotográfica.
O resultado dessa atitude foi o despertar do sentimento de aceitação em Soleymane com relação ao ambiente social, disposto naquela sala de aula. O fator surpresa contido na iniciativa do professor foi o responsável pela integração social do aluno. “O primeiro hábito de um professor fascinante é entender a mente do aluno e procurar respostas incomuns, diferentes daquelas a que o jovem está acostumado.” (CURY, 2008:43)
Quando cursava a oitava série, do antigo primeiro grau, passei por problemas particulares devido ao estado de saúde da minha mãe. O acontecimento refletiu diretamente no meu rendimento escolar e no meu comportamento que, outrora expansivo e carismático, tornou-se introvertido e arredio. Na ocasião, uma professora de matemática, matéria que como todas as outras ciências exatas não tinha minha simpatia, tomou conhecimento da brusca queda nas minhas notas, bem como do que me afligia. Ao ser indagada pela citada professora, respondi que, na ausência da minha mãe, eu havia assumido os papéis que a ela cabiam e deixando os estudos para segundo plano. Esperava que a conversa terminasse por aí mas me surpreendi com suas palavras: “Lave o banheiro e cuide de seu irmãozinho, o resto se ajeita.” Em seguida me entregou um papel onde constava um número de telefone e a frase ‘ligue quando precisar’.
Vinte anos se passaram e tal mensagem continua viva em mim. Não só quando penso como administradora do lar, mas quando tenho que enfrentar tempos difíceis. Após aquele ano, em que me formei com louvor em todas as matérias, nunca mais encontrei com essa educadora e nem mesmo sei se ainda pertence a este mundo. A única certeza que tenho é que, como todo grande ser humano, ela não me marcou pelo que foi mas pelo que fez.
Referencias Bibliográfica:
Escritas:
CURY, Augusto. Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2008
DURKHEIM, Émile In: FERRARI, Márcio. O criador da sociologia da educação. Disponível no site: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/criador-sociologia-educacao-423124.shtml Consultado em 28/09/11.
Audiovisuais:
CANTET, Laurent. Entre lês Mus (Entre os Muros da Escola). França: Sony Pictures Classics e Imovision, 2007.


